Especialistas de SC projetam reestruturação das cadeias logística e de comércio exterior com Covid-19

A pandemia do novo coronavírus (Covid-19) está provocando transformações radicais em todo o mundo, criou um novo perfil de consumidor e está gerando mudanças estratégicas nas relações comerciais, sejam elas no mercado interno ou global. Inclusive, promoveu mudanças significativas em toda a cadeia de consumo, englobando desde a indústria primária até a distribuição final dos produtos. E a competitividade continua sendo a palavra chave em todo esse processo. Só que agora ela vem acompanhada de criatividade e flexibilidade. Três itens fundamentais no mercado pós-Covid 19.

Leandro Barreto_ arquivo pessoal

O consultor Leandro Carelli Barreto, da Solve Shipping Intelligence Specialists, diz que em termos de comércio internacional, o Brasil segue andando “descolado” do resto do mundo, ou seja, “as quedas [onde há queda] não estão sendo tão drásticas.

“Tenho a impressão de que nossa pauta exportadora é bastante concentrada em produtos essenciais [alimentos, matérias-primas, produtos básicos], o que justifica o pequeno impacto. Já na importação, somos uma economia tão fechada e com impostos de importação tão altos que o que importamos é por necessidade mesmo”, acrescenta Barreto.

Para o presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Mário Cezar de Aguiar, este é o momento de as empresas repensarem suas estratégias. “Precisamos depender cada vez menos da exportação de insumos e exportar mais produtos manufaturados”, aponta Aguiar. Entretanto, ele afirma que a falta de uma política industrial no Brasil pode prejudicar o setor em sua retomada.

Em Santa Catarina, de janeiro a março, segundo números do Observatório Fiesc, as exportações de proteína animal e grãos estão mantidas dentro das previsões. No entanto, de outros segmentos, tiveram redução. Essa realidade deve prevalecer ainda nos meses de abril e subsequentes.

 “Isso já era esperado dado ao fechamento das fronteiras, redução na disponibilidade de contêineres nos portos catarinenses e brasileiros, redução nos voos. As importações, por sua vez, estão retraídas devido a redução da atividade industrial”, diz a presidente da Câmara de Comércio Exterior da Fiesc, Maria Teresa Bustamante.

Mauro Sperber dos Santos, CEO da Múltipla Assessoria Aduaneira, de Itajaí, confirma a retração nas importações, principalmente de manufaturados. “Muitas compras e embarques foram cancelados. Embora a China tenha voltado à normalidade, aqui no Brasil o mercado está parado. Não há vendas e, diante disso, todo mundo tirou o pé do acelerador”, diz Sperber.

Relações comerciais

“As relações comerciais entre os países vão mudar, disso não há dúvidas”, diz Maria Teresa Bustamante. Segundo a especialista, o consumidor começa a buscar novos tipos de produtos, o que gera a necessidade de reestruturação da cadeia produtiva, que vai precisar agregar mais tecnologia, ter mais cuidados no cumprimento de normas técnicas e um olhar bem mais aprimorado para as embalagens.

Maitê Bustamante _ Fiesc_Divulgação

Outro quesito que Maitê Bustamante destaca é a necessidade de maior automação nas linhas de produção [visando reduzir as mãos humanas na manipulação dos alimentos] para atender as mudanças de hábito do consumidor com a pandemia.

Outra coisa que vai mudar drasticamente nas relações de consumo é a maior utilização do e-commerce, que ficou bem mais acentuado durante os períodos de quarentena e é uma tendência para o pós-Covid 19.

“As pessoas tendem a continuar comprando pela Internet [evitando os contatos físicos] e não tenho dúvidas que daqui para a frente assistiremos uma reformulação, não apenas dos hábitos de consumo, com a adoção de filtros pelos consumidor, que ficará bem mais exigente”, diz Maitê Bustamante.

 “A matriz de fornecimento será impactada, há tendência de redução da dependência dos países asiáticos e de outros fornecedores estrangeiros e um fortalecimento da indústria nacional”, acrescenta.

Para Mauro Sperber, deverá haver mudanças em todos os sentidos, “seja da maneira como trabalhamos hoje, seja na maneira como nos socializamos, como consumimos”. Para o presidente da Fiesc, Santa Catarina é um estado que tem vantagens e está muito mais preparado para ter uma corrente internacional do comércio diante de muitos outros estados. Aguiar diz que uma das expressivas desvantagens brasileiras é o Estado obeso, inoperante, com uma carga tributária muito onerosa e que não traz resultados. Problemas que somente serão resolvidos ou minimizados por meio de uma reforma tributária.

Internacionalização

Uma alternativa que vai representar a melhoria da competitividade das produções catarinense e brasileira também no mercado interno é a industrialização das empresas, o que passa a ser visto como estratégia fundamental para as organizações, incluindo o micro e pequeno negócio.

O diretor superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em Santa Catarina, Carlos Henrique Ramos Fonseca, diz que a internacionalização está atrelada à melhoria da competitividade e produtividade.

“Quando uma empresa está competindo no mercado internacional, ela ganha competitividade”, destaca Fonseca, observando que uma empresa internacionalizada não necessita obrigatoriamente fazer negócios no exterior. “Ela pode participar da cadeia global de valor fornecendo para outra, que seja exportadora”, exemplifica.

Entusiasta da ideia de que a internacionalização tem que ser encarada por empresas de qualquer porte como sinônimo de competitividade, Maitê Bustamante diz que “competitividade é o conjunto de variáveis do ambiente interno de cada empresa, ou seja, seus pontos fortes e fracos, vantagens competitivas, gestão de recursos financeiros, estratégias”. Para ela, a necessidade de redução de custos é cada vez mais incontestável.

Além disso, ela entende que deve ocorrer uma chamada imediata do desenvolvimento de fornecedores do mercado interno. Mas para isso as empresas precisam desenvolver vantagens competitivas sustentáveis ao longo do tempo.

 “Ninguém vai continuar fazendo negócios como fazia antes, pois o consumidor é outro. A cultura do consumidor se adapta muito mais rapidamente do que a do empresário”, afirma. Maitê Bustamante destaca que agora é crucial pensar de forma diferente e se ter uma visão de futuro, porém, entendendo o momento atual.

Nova logística

Para atender essa nova relação de consumo a cadeia logística também precisa se reinventar e focar em nichos de mercado que até o início deste ano não eram tão fundamentais. A quarentena, medida restritiva para o trânsito de pessoas e que mantém a operação de serviços essenciais, trouxe à tona a importância do Supply Chain e da Logística para a sociedade, uma vez que são responsáveis pelo abastecimento e distribuição dos insumos necessários para toda a população, inclusive para empresas alimentícias e farmacêuticas. E o fortalecimento do e-commerce e de outras modalidades de comércio vai gerar uma readaptação do mercado logístico.

Essas mudanças nas cadeias produtivas e logística serão abordadas na edição deste ano da Logistique – Feira e Congresso de Logística e Negócios Multimodais de Cargas. O evento é considerado o mais importante do setor no Sul do Brasil e vai reunir, de 1º a 3 de setembro, no Centro de Convenções da Expoville, em Joinville, SC, importantes players do setor para discutir o futuro da logística, apresentar práticas de sucesso e gerar negócios, seja na intralogística, transporte multimoda ou comércio exterior.

A edição 2020 já tem confirmados os patrocínios do Porto Itapoá e a MAN Latin America – Volkswagen Caminhões e Ônibus. A feira é organizada pela Zoom Feiras & Eventos, uma empresa com mais de 10 anos de tradição no mercado catarinense.


Por EQUIPE DO COMEX


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